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Bruxaria, religiões e misoginia

May 18, 2017

 

 

 

É bastante antiga a relação entre instituições religiosas e a violência contra a mulher. As religiões, de uma forma geral, são bastante violentas com as mulheres. Eu não diria que as instituições religiosas inauguraram a ideia da inferioridade feminina, mas elas exercem um forte papel de reforçar essa ideia, até porque dispõem de um discurso extremamente poderoso. 


No discurso bíblico sobre como Deus criou o mundo, fica clara a ideia do sexo masculino como o representante da espécie humana. A hierarquia entre os sexos já começa aí. A mulher seria um ser secundário, feita à semelhança do homem, ao passo que o homem foi feito à semelhança de Deus. A história de como o pecado se instaurou na humanidade, através da mulher, condena o sexo feminino ao lugar de um ser perigoso. Eva não apenas prova o fruto proibido, mas o oferece a Adão, levando-o a provar também. Percebam a relação entre a figura feminina e a periculosidade, a mulher como ser que instaura o pecado. Essa ideia ressoa nos nossos valores culturais com uma força extrema. O pecado do sexo é feminino por excelência. Para cada homem que cai em tentação, há uma mulher a quem culpar. Aos homens, a indulgência; às mulheres, a culpa.

 

A maioria das instituições religiosas são extremamente masculinas e masculinistas. São instituições criadas por homens, pensadas e dirigidas por homens. Historicamente, essas instituições têm desempenhado um forte papel de controlar e violentar mulheres, seja de formas explícitas, como foi o caso da caça às bruxas na Idade Média, seja através dos discursos que só contribuem para a perpetuação da ideia da inferioridade feminina.

 

No século XV, foi redigido um texto, por homens da Igreja Católica, chamado Malleus Maleficarum. Este foi o documento que oficializou a caça às bruxas, levando à tortura e à morte mais de 100 mil mulheres. Esse documento extremamente misógino, que difundiu uma ideia diabolizada do sexo feminino, fundamentava-se na narrativa bíblica sobre Eva. A natureza e a biologia feminina eram fortemente associadas a coisas maléficas e causadoras de danos para os homens. O corpo feminino, a carne feminina, sendo a via pela qual o pecado se insere no mundo, representava um perigo do qual os homens tinham que se defender. A mulher era vista como um obstáculo à ascendência espiritual que deveria ser almejada pelos homens. 



Foi com base nessas ideias misóginas que a caça às bruxas se iniciou. Isso não deixa dúvidas sobre como a diferença sexual é um fator importantíssimo na compreensão da história de violência contra as mulheres, e esse fator não pode ser ignorado. A biologia feminina parece, desde sempre, ter sido alvo de assombro e ódio dos homens (perceba: dizer que é alvo é diferente de dizer que é causa), como se fosse uma terrível ameaça.

 

As bruxas eram mulheres que exploravam de forma livre a relação com a natureza e acreditavam que o fato de as mulheres terem uma biologia cíclica, assim como a natureza, que apresenta quatro estações, assim como a lua, que apresenta fases, as conferia um poder especial. Elas acreditavam que as mulheres eram seres naturalmente mais ligados à natureza do que os homens. Elas celebravam isso, acreditando que isso as conferia um poder enorme. Isso parece ter representado uma ameaça sem igual e então foi iniciada a caça a essas mulheres. 


Os contos de fada exploraram bastante a imagem negativa da mulher bruxa e o que vemos é que essa ideia é perpetuada ainda hoje: a bruxa como um ser macabro, que deve ser combatido. Esses contos parecem algo inofensivo, mas apresentam um inigualável poder de perpetuação de ideias, pois estão carregados de simbolismos e agem desde a infância na formação das nossas representações sociais.

 

 

A bruxaria apresenta uma visão de mundo que pode ser empoderadora para mulheres, em muitos sentidos. A crença em uma Deusa já é um diferencial enorme. Aprendemos a acreditar em um Deus que, por mais que nos digam que é uma energia e não tem sexo, ensinam-nos a chamar de “Pai”, de “Senhor”, de "Criador". Ou seja, há uma ideia masculina de Deus, por mais que isso seja negado. Isso acontece porque nós masculinizamos nossas referências de figuras de poder. O diferencial da bruxaria começa por aí: a figura central é a Deusa, representativa da fertilidade, da feminilidade que pulsa na natureza, da força natural dos ciclos femininos.

 

A biologia feminina foi historicamente usada para desvalorizar mulheres, para nos colocar em uma posição de inferioridade: nos disseram que somos menos aptas para tomar grandes decisões e para ocupar cargos de poder porque somos emocionalmente instáveis, porque existimos para parir. Nada disso é verdade. São distorções em que a cultura patriarcal nos faz acreditar. Em resposta a isso, percebe-se hoje um movimento de negação da diferença sexual, negação dessa biologia diferenciada. Assim, a mulher se torna um ser "descorporificado", "desbiologizado". 



Questionar os efeitos da diferença sexual é importante, mas é interessante também não perder de vista que pode ser ainda mais empoderador o resgate do corpo e da natureza feminina como fontes de força e não de inferioridade, como algo que nos torna seres dotados de uma força que a cultura patriarcal tem tentado silenciar e domesticar por séculos.

 


Esse trabalho de mistificar a figura da bruxa, colocando-a como um ser terrível e macabro nos diz algo de importante. Há uma face do feminino que tem sido silenciada, que não corresponde à graciosidade da jovem princesa e nem à bondade da mãe. Há uma face menos aceitável do feminino, relacionado ao arquétipo da anciã sábia e poderosa, da mulher nada submissa, indomável, indomesticável, que não se pode subjugar. A figura da bruxa amedronta exatamente porque representa uma face do feminino que não serve à manutenção da ordem patriarcal, pois ela não é bela, não agrada aos olhares masculinos, não é graciosa, e está longe de se aproximar da figura da mãe bondosa, que abdica de si para cuidar do outro. Ela tem a maldade e a força que as mulheres estão proibidas de ter, ela escancara o poder de matar para trazer à vida que o corpo feminino carrega em seu ciclo mensal. É mais adequado à manutenção dessa ordem calar essa face feminina e fazer as mulheres acreditarem que existem para ser doces e submissas, e para engravidar. 


Silenciar e mistificar a face do feminino onde mora o poder das mulheres é o trabalho que o patriarcado tem feito por séculos a fio.

 

 

 

 

 

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