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E se eu sugerir que você desista de vez da autoconfiança?

May 18, 2017

 

 

Arrisco dizer que a busca pela autoconfiança é o motivo que mais leva mulheres aos consultórios de Psicologia.

 

“Queria ser mais segura”, “Meu sonho é ser mais autoconfiante”, “Meu grande problema na vida é a insegurança”.

 

Quando investigamos a fundo o significado dessas frases, vemos que, no fim, o que se está buscando é uma única coisa: amor e admiração.

 

As pessoas fantasiam que, se parecerem mais autoconfiantes, mais fortes e mais seguras, serão mais admiradas, logo, mais amadas.

 

 

E o que é essa tal de autoconfiança?

 

 

Ao pedir a algumas pacientes para imaginarem e darem exemplos do que significa esse conceito, pude constatar algumas coisas. Em primeiro lugar, essa característica é associada, nas mulheres, à beleza. Uma mulher que transmite autoconfiança deve, em primeiro lugar, estar adequada aos padrões que definem uma mulher bonita, na nossa cultura. Depois da beleza, vem outras características: uma postura que transmita força, firmeza, certezas, inteligência, “personalidade forte” e, junto a isso, uma boa dose de sensualidade.

 

 

A conclusão a que chego é que a autoconfiança se aplica muito bem a personagens fictícios. Talvez consigamos enxerga-la naquela personagem que tanto admiramos naquele filme ou série, naquela famosa cujas fotos acompanhamos no instagram, ou naquela artista que vimos em um clipe musical. Ah, quem dera ser como elas! Eu conseguiria mais coisas, as pessoas me admirariam, as mulheres iriam querer ser como eu, os homens iriam me desejar, eu certamente seria mais feliz... E mais amada.

 

 

Doce ilusão.

 

 

Projetamos nessas personagens irreais nossas idealizações sobre o que gostaríamos de ser... E isso só é possível porque não as vemos no dia a dia. Não vemos seu lado humano, que é sempre, inevitavelmente, falho. Não ouvimos as inseguranças e os dilemas que elas levam a seus terapeutas. Não conhecemos suas fragilidades, suas sombras, e assim, imaginamos que não existem.

 

 

Ficamos com a ilusão de que poderíamos, quem sabe um dia, ser como elas... Quem sabe só hoje eu consiga me sentir como ela... Quem sabe se postar essa foto e ganhar mais de 50 likes, quem sabe se passar essa maquiagem e colocar esse salto que me deixa tão bonita, quem sabe se eu aprender a me amar?

 

 

Quem sabe...

 

 

Vejo mulheres sonhando com esse amanhã impossível, buscando uma idealização fomentada por ideias rasas vendidas pela mídia, pelas representações sociais de feminilidade, etc.

 

 

Acabam fazendo o caminho contrário. Deveriam ir por um lado, mas vão pelo lado oposto. Deveriam estar buscando se conhecer, fortalecer a conexão consigo mesmas, desenvolver uma relação de amor e aceitação com o que são... Ao invés disso, estão fantasiando que deveriam ser diferentes.

 

 

 

Pare por um minuto para fazer a seguinte reflexão, de forma realmente sincera consigo mesma:

 

 

Imagine que você conseguisse convencer todas as pessoas à sua volta sobre a sua autoconfiança. Imagine que todos os seus familiares, todos os seus amigos e conhecidos, tivessem você como um exemplo de autoconfiança. Imagine que todos elogiassem e admirassem isso em você. Legal, não?

 

 

Mas imagine que, no fundo, naqueles momentos em que você tem a oportunidade de estar sozinha, apenas consigo mesma e seus próprios pensamentos e sentimentos, você soubesse, em seu íntimo, o quanto isso não passa de uma falsa impressão. De uma imagem construída às custas de muito esforço para esconder seus paradoxos, suas inseguranças e fraquezas. Agora responda: você acha que seria realmente feliz?

 

 

 

Vivemos em uma cultura que valoriza cada vez mais uma imagem de pessoa forte e decidida, mas o que ninguém te conta é que não há caminho para ser forte que não seja através do conhecimento e aceitação das suas fragilidades. E que, muitas vezes, aquilo que aprendemos a chamar de fragilidade, é exatamente onde reside a maior força de uma pessoa. Cultuamos a superficialidade, o não se importar com o outro, a agressividade, e não percebemos que é justamente a capacidade de amar e de ter empatia o que nos potencializa como seres humanos e nos torna mais fortes. O resultado disso é um desajuste total entre sombra e persona*. 

 

 

Fortalecemos a persona, o que permite transmitir socialmente a imagem que queremos, e escondemos nossa sombra, reprimindo nossos aspectos mais íntimos e nem sempre desejáveis. Mas o que é reprimido ganha força, e assim vemos relações interpessoais cada vez mais adoecidas, pois pessoas que não têm uma relação saudável consigo mesmas não conseguirão construir relações saudáveis com os outros.

 

 

Não há caminho para a nossa realização como seres humanos que não seja através do autoconhecimento e do acolhimento em relação a tudo o que somos, desde nossas partes socialmente valorizadas até aquelas que mais tentamos esconder, inclusive de nós mesmos. Esse processo é o que permite uma maior espontaneidade, afinal, quanto menos dominados pela nossa persona, mais espontâneos conseguimos ser. Por isso, eu sugiro que a busca pelo autoconhecimento e aceitação da nossa completude deveria ser muito mais importante que o desejo por autoconfiança.

 

 

 

 

 

 

*Sombra e persona são conceitos da Psicologia Junguiana. Ambas são arquétipos do inconsciente coletivo. A persona se refere à “máscara” que usamos socialmente, os aspectos de nós mesmos que mostramos na interação social. A sombra, ao contrário, representa nossos mais aspectos mais íntimos e ocultos, é onde reside nossas piores e também nossas melhores potencialidades. Um equilíbrio entre sombra e persona é importante para uma vida social de qualidade, bem como uma relação intrapessoal saudável. 

 

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