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O direito ao não perdão

May 18, 2017

 

 

 

Dizem que perdoar é divino. Que é libertador. Que guardar mágoa ou rancor é como tomar veneno desejando que o outro morra. Há psicanalistas que digam que o ressentimento vem do reconhecimento de que se permitiu que o outro nos fizesse algum mal, ou seja, o ressentimento vem, antes de tudo, de uma raiva de si.

 

 

Eu diria que essa ideia de perdão tem se tornado uma obrigação. E não vejo isso como algo saudável. Os afetos humanos são ambivalentes, e essa ideia de que devemos nos responsabilizar por tudo de ruim que já nos aconteceu e perdoar a todos cai no risco de parecer que não temos direito à raiva.

 

 

Mas eu digo: sim, nós temos direito à raiva. E a raiva pode ser muito saudável. E claro, somos, em grande medida, responsáveis pela maneira como lidamos com os acontecimentos da vida. Mas dizer que somos responsáveis por tudo o que nos acontece dá a ideia de que vivemos em uma bolha, que estamos isentos das consequências das atitudes de terceiros, o que não é verdade.

 

 

Somos seres relacionais. Nossas ações têm efeito na vida das pessoas com quem nos relacionamos, e vice-versa. Quanto mais vulnerável for uma pessoa, maior o efeito que podemos ter na vida dela. Por exemplo, no caso de uma criança. Determinadas atitudes dos adultos cuidadores podem ter efeitos devastadores na vida de uma criança, que serão levados para a vida adulta. Eu acredito que somos possibilidades, que é nossa responsabilidade sempre explorar as melhores possibilidades de nós mesmos. Acredito também que ninguém tem o poder de encerrar as possibilidades (de ser feliz, de viver bem) de outro ser humano. Por outro lado, acho um erro dizer que alguém é responsável por ter permitido tudo de ruim que já lhe aconteceu, ignorando o fato de que ações de terceiros podem ter efeitos muito devastadores na vida de qualquer pessoa. E mais: tentando ignorar o fato de que as pessoas podem, sim, ter atitudes horríveis e muito más.

 

 

Mas elas podem. Porque, como disse, somos possibilidades. As melhores e as piores possíveis.

 

 

 

 

Eu costumo dizer às minhas pacientes que a culpa e a raiva são sentimentos que somam zero. O que quero dizer com isso? Que, quando nos proibimos de sentir raiva, a culpa aparece, e quanto maior um sentimento, menor o outro. Pense no caso de uma mãe, por exemplo. Sabemos que, normalmente, quando uma mulher se torna mãe, juntamente com os sentimentos de amor, ternura e carinho pelo bebê, surgem também sentimentos inconscientes de raiva. Essa raiva pode estar relacionada a várias coisas: as mudanças pelas quais sua vida teve que passar, as dificuldades que ela não esperava, ao quanto aquele bebê suga completamente suas energias e todos os seus minutos. Porém, antes mesmo que essa raiva chegue à consciência, vem a culpa: que mãe horrível sentiria raiva de um bebê? Então a culpa silencia a raiva, a culpa aumenta enquanto reduz a raiva a zero. Se essa mãe faz um trabalho de psicoterapia que permite que ela acesse essa raiva e a manifeste, a raiva silencia a culpa. Por isso digo que são afetos que somam zero. Quanto maior um, menor o outro. É muito comum também que essa ambivalência seja direcionada aos pais. É normal sentir raiva da mãe ou do pai, mas logo vem a culpa: “não posso sentir raiva dos meus pais!” e a raiva é, então, silenciada.

 

 

O que quero mostrar com isso é que a raiva é saudável. Mais que isso, é necessária. Necessária no sentido de que precisa ser reconhecida, vivenciada e canalizada. Jamais silenciada e negada. Pois o silenciamento da raiva só gera culpa.

 

 

Por isso, me preocupa essa ideia de que devemos sempre perdoar. Pergunto: qual o problema de não perdoar? Qual é o grande problema em ter a consciência de que alguém agiu com você de uma forma péssima e dizer que não perdoa essa pessoa?

 

 

Se estamos falando de culpabilizar alguém como maneira de se esquivar de reconhecer as próprias limitações, as próprias questões que precisam ser admitidas e trabalhadas, ok. Isso realmente não é legal nem saudável. E a saída para isso é assumir a responsabilidade que nos cabe. Isso não é o mesmo que dizer que devemos assumir a responsabilidade toda.

 

 

Sim, você pode ter raiva. Tenha mesmo, mas não fique estagnada nela. Canalize-a, deixe-a sair. Sim, você pode perfeitamente não perdoar aquela pessoa que agiu de uma forma péssima com você, seja na sua infância, seja na sua vida adulta. Pode dizer que a pessoa foi babaca, foi horrível, foi idiota, talvez ela tenha sido mesmo, estamos falando de seres humanos. Pode não perdoar. Isso não é tomar veneno desejando que o outro morra. Isso é ser gente, é ser humano. Isso é aceitar a ambivalência dos seus afetos.

 

 

Perdão? Mais importante que dá-lo aos outros, é dá-lo a você. Perdoe-se. E perdoe-se, inclusive, por não perdoar a quem te fez mal. A raiva é um direito seu. Não permita que te tirem.

 

 

(imagem do filme "Cisne Negro". Observe bem como é justamente a manifestação da raiva que faz com que a personagem se empodere e consiga fazer emergir seu lado "negro", o que a permite a interpretação, com maestria, do cisne negro. É a aceitação e integração de seus sentimentos mais obscuros que a permite incorporar o cisne).

 

 

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