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Toda relação patológica é uma relação abusiva?

May 18, 2017

 

 

O assunto é mais complexo do que parece.

 

 

Relações abusivas não são relações entre bandido e mocinha. Não são relações entre alguém que é 100% vítima e outro alguém que é 100% algoz. ISSO NÃO EXISTE EM RELACIONAMENTO NENHUM. A dinâmica de qualquer relacionamento é algo que se constrói juntos. Nenhuma relação é unilateral.

 

Isso é um pressuposto básico para começar essa conversa.

 

 

Pois bem.

 

O que o Brasil assistiu recentemente no reality show da Rede Globo foi uma excelente ilustração de como se constrói uma relação patológica, que passa, rapidamente, a ser uma relação abusiva. Como pudemos ver, não se tratava de um bandido e uma mocinha. Não se tratava de um homem malvado e cruel e uma moça de caráter impecável e exemplo de valores e equilíbrio emocional.

 

Não.

 

Os personagens dessa história eram dois seres humanos. Duas pessoas que começam a construir, desde o primeiro momento, uma relação patológica, abrindo precedentes para o abuso, que iria ocorrer mais tarde.

 

O que diferencia uma relação patológica de uma relação saudável é o fator dependência emocional / apego.

 

 

 

 

Em uma relação saudável, as pessoas se gostam, apreciam a companhia uma da outra. Em uma relação patológica, as pessoas se precisam e não conseguem mais imaginar suas vidas sem o outro. Querem estar juntas por apego, deixam de fazer programas em que o outro não está presente. Não acham graça em nada que não envolva a presença do parceiro. Perdem o senso da própria individualidade.

 

 

Esse tipo de relação não necessariamente se torna abusiva, mas abre o precedente para que isso aconteça.

 

 

A dependência emocional e a perda da própria individualidade facilita que os abusos e a manipulação comecem a surgir. Se eu perco o senso de que eu sou um indivíduo separado do outro, me confundindo com ele, qualquer coisa que o outro faça e que seja destoante das minhas projeções e expectativas, irá me incomodar. O outro passa a ser visto como um grande espelho de mim.

 

 

 

Ou seja, é uma situação onde minha própria identidade fica “embolada” com o outro. Eu, então, me perco de mim, e passo a incorporar, cada vez mais, o que meu parceiro espera, ou o que eu imagino que ele espere. Da mesma forma, eu exijo, cada vez mais, que o meu parceiro seja exatamente aquilo que eu projeto nele. Qualquer coisa que fuja a isso, causará frustração. A forma das pessoas na relação lidarem com essa frustração irá determinar se ela se tornará abusiva.

 

 

O ponto que quero deixar claro até aqui, então, é: o elemento mais importante em qualquer relacionamento saudável é o respeito às individualidades das pessoas envolvidas. E quanto mais eu respeito e prezo pela minha própria individualidade, mais eu respeito a do meu parceiro. Quanto mais eu me perco nessa relação, mais eu vou exigir que meu parceiro se perca em mim também.

 

 

Tendo claro esse ponto, vamos seguir a conversa.

 

 

Vamos trazer para o nosso papo o fator hierarquia sexual. Eis o fator que estava fortemente marcado, desde o início, no relacionamento que usei para ilustrar esse texto. Eis o fator que está sempre presente nas relações heterossexuais, e que é um adicional no sentido de favorecer que a relação torne-se abusiva.

 

 

Aí, entram fatores culturais muito importantes. As hierarquias sociais estão presentes na formação da nossa subjetividade. O que significa dizer que, se eu cresci em um contexto machista, isso estará na base de quem eu sou. Não é algo de que seja possível se livrar. Podemos, sim, nos conscientizar e trabalhar isso.

 

 

Para compreender a forma como a hierarquia sexual atua nas relações, temos que considerar coisas como: a forma como mulheres ainda são ensinadas, desde a infância, a supervalorizar a vida amorosa e a presença de um homem na vida delas; a forma como o “amor romântico” é um produto cultural vendido para mulheres; as nossas representações sociais de feminilidade, segundo as quais mulheres só são felizes e realizadas se tiverem marido e filhos; nossos valores cristãos que ensinam que a família é o bem maior, em nome do qual valem todos os sacrifícios femininos; a heterossexualidade obrigatória; um certo pacto social sutil e silencioso que nos ensina que mulheres que suportam tudo em nome da família - inclua aí violências e abusos do parceiro - são verdadeiras guerreiras. Enfim, são muitos os fatores que fazem com que relações heterossexuais sejam sempre perpassadas por hierarquias. Some a isso a socialização masculina, que ensina homens a verem mulheres como suas propriedades e a agir de forma predatória com elas.

 

 

Então, apenas relações heterossexuais se tornam abusivas? Não. Qualquer relação em que haja coação, abuso ou manipulação de qualquer tipo é abusiva. O que estou tentando mostrar é que há fatores que favorecem que isso aconteça. A perda do senso de individualidade é um desses fatores. A hierarquia sexual é outro.

 

 

E é muito importante ressaltar que, como eu disse no início, não existe relação onde alguém está sempre certo e outro alguém está sempre errado. Mas isso não desqualifica o diagnóstico de relação abusiva. Voltando ao nosso casal exemplo, todas as manipulações e perdas de controle de Emilly não tornam menos graves os abusos por parte de Marcos. Ele poderia ter apenas se afastado dela em definitivo. Mas não foi o que ele fez. Ele se apoiou na posição de superioridade que a nossa sociedade machista confere a ele para desqualifica-la, intimida-la e coagi-la emocionalmente. Além de ter também se aproveitado de seu tamanho e tom de voz mais grave para encurrala-la e gritar com ela, tratando-a como propriedade, como alguém com quem ele teria o direito de falar como quisesse, no tom que quisesse.

 

 

Esse tipo de abuso é comumente acompanhado de vitimização e cenas dramáticas de choro por parte do parceiro abusador. Por isso, é tão comum que mulheres em relações abusivas sintam-se responsáveis pelo que está acontecendo. Veem seus parceiros chorando e pedindo perdão, falando de suas fraquezas e do quanto precisam da ajuda delas. Eis um ciclo que não tem fim. Mulheres não são socializadas para dizer não ou para negar ajuda. Mostrar fragilidade e pedir ajuda a uma mulher é uma forma de tocar no âmago de sua sensibilidade. E os homens sabem disso, queridas. Os homens sabem muito bem disso.

 

 

Para finalizar a reflexão, deixarei uma sugestão para as mulheres que me leem:

 

 

Trabalhe em si seu senso de individualidade, empodere-se. Não busque relações amorosas para preencher seus vazios. Trabalhe seus vazios, suas questões. Entenda que certos valores não são negociáveis. Sua liberdade é um deles. Sua autonomia também. Quanto mais firme estiver tudo isso pra você, menores as chances de você se envolver em uma relação patológica. Ou, pelo menos, maiores as chances de conseguir sair logo, caso aconteça.

 

 

Ninguém está isenta a passar por essas coisas. Mas quanto mais fortalecidas estamos, menores as chances de estabelecermos alianças contra nós mesmas, sem nos dar conta.

 

 

 

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