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No dia dos namorados, um texto para as mulheres solteiras (ou para as que querem refletir sobre suas relações)

June 9, 2017

 

 

Não pretendo que este seja um texto anti-amor. Mas, nessa data em que somos bombardeadas com tantas mensagens românticas, proponho falarmos de relações amorosas de uma forma mais crítica e consciente.

 

 

Temos ouvido muito a queixa de que estamos vivendo tempos de relações supérfluas. No consultório, essa queixa é extremamente frequente. Penso que as relações humanas sempre foram muito complicadas e não sei se podemos dizer que, em outros momentos, as coisas eram mais fáceis do que são hoje. Especialmente para as mulheres. Nos tempos de nossas avós, o casamento era algo a ser mantido, independente do preço a se pagar. Era muito comum que mulheres pagassem o preço de abrir mão da própria felicidade, para não ter que carregar o peso do rótulo de “mulher separada” ou “mãe solteira”. Então, quando reclamamos que hoje em dia as relações estão muito supérfluas, é importante nos perguntar se realmente já foi melhor em algum outro período da História.

 

 

O que eu vejo acontecer hoje é um fenômeno cultural muito nocivo: a supervalorização do individualismo. A regra do momento é não se apegar. Quem se apega é muito carente, e não há nada mais indicativo de fraqueza emocional do que isso.

 

 

O grande problema é que, com isso, nos esquecemos de um fato que faz parte da natureza humana: O SER HUMANO É UM SER GREGÁRIO. É da nossa natureza o desejo e a necessidade de formar vínculos com outros seres humanos. É claro que não estou me referindo apenas ao vínculo amoroso, mas esse é um deles. Tentar negar ou reprimir essa necessidade só faz com que ela cresça. Lembrem-se: tudo o que é reprimido ganha força.

 

 

Discutido esse primeiro ponto da minha argumentação, passemos ao próximo.

 

 

Sabemos que o “amor romântico” é um produto vendido para as mulheres, infinitamente mais que para os homens. Ainda faz parte da socialização feminina a crença de que a presença de um homem é absolutamente indispensável para uma vida feliz. Quando eu falo em socialização feminina, estou me referindo a um processo complexo que envolve representações sociais de feminilidade veiculadas na sociedade através dos discursos, da publicidade, das histórias que ouvimos desde a infância, dos filmes a que assistimos, dos valores passados de geração em geração, etc. Tudo isso perpassa a formação da nossa subjetividade enquanto mulheres desde que nascemos e passamos a estar expostas a todos esse estímulos.

 

 

 

 

Sabem quando eu disse ali em cima que, nos tempos das nossas avós, era muito comum que mulheres pagassem o preço da própria felicidade em prol de estar em relacionamento amoroso? Pois é, dificilmente alguém discorda quando digo isso. Mas é um pouco mais difícil fazer algumas pessoas entenderem que isso continua muito mais atual do que imaginamos. As mulheres ainda pagam preços muito altos para não estarem sozinhas. Às vezes, esse preço é o de suportar a situação hierárquica que está presente em (quase?) todas as relações heterossexuais, sem se opor a isso, topando pequenos acordos velados e sutis contra si mesma, muitas vezes sem se dar conta. Outras vezes, esse preço é o de suportar maus tratos mais evidentes, silenciamentos, pequenas violências psicológicas. E, em outros casos, esse preço se refere a suportar traições e violência física. Vale ressaltar que as mulheres que estão nessa situação, não estão “porque querem”. No fundo, elas sabem o peso do julgamento social que terão que enfrentar se realmente colocarem um fim nisso. Além do julgamento social, há um julgamento interno que vem de valores internalizados desde a infância, que nos ensinam que uma mulher de verdade sabe transformar e segurar um homem. Como diz a Bíblia, “a mulher sábia edifica o lar”. Nem sempre temos a devida noção da violência contida nesses discursos que fingem valorizar a mulher e na verdade só servem para colocar um peso gigantesco em nossas costas.

 

 

O ponto ao qual eu pretendo chegar é:

 

 

Percebem a incoerência dessas mensagens que recebemos? São mensagens muito ambíguas que são passadas para as mulheres. É de uma total esquizofrenia social:

 

Seja autossuficiente! (Mas tenha um namorado).

 

Seja emocionalmente independente! (Mas se estiver solteira, significa que é fracassada).

 

Não se apegue a ninguém! (Mas nossa, você não consegue manter uma relação duradoura, deve ter algum problema).

 

Não seja carente! (Afinal, assim nenhum homem vai te querer).

 

Saiba ser feliz sozinha! (Mas é claro que se estivesse namorando, estaria mais feliz).

 

 

Seria extremamente cômico, se não fosse trágico! As mulheres estão confusas e sem saber o que fazer com isso. Muitas estão sofrendo ao tentar se adequar ao que é esperado delas (que nem elas e nem ninguém sabe o que é, na verdade). No fim, parece que toda a busca por independência emocional serve apenas para que fique mais fácil encontrar um homem! Não é muito incoerente?

 

 

 

 

É difícil encontrar um equilíbrio em meio a tudo isso. Mas o que eu proponho é, em primeiro lugar, a tomada de consciência em relação à confusão que essas mensagens ambíguas causam.

 

 

A autossuficiência nunca foi tão valorizada. Mas, de certa forma, ela é uma ilusão. Ninguém é tão autossuficiente assim. Essa crença empobrece relações e faz com que você reprima um lado seu que quer estabelecer vínculos que não sejam apenas superficiais. O problema de reprimir isso é que faz com que ganhe força, fazendo com que essa necessidade fique cada vez mais latente.

 

 

Por outro lado, esteja atenta à força das mensagens implícitas de que você só será feliz se tiver um homem ao seu lado. Estar em relacionamento amoroso só vale a pena se for pra aumentar o seu nível de felicidade de alguma maneira, o que nem sempre acontece. Pagar o preço da própria felicidade para dar uma satisfação à sociedade e poder postar fotos com o mozão nas redes sociais no dia dos namorados e, assim poder dizer “olha, sociedade, tá vendo, eu sou uma mulher capaz de conquistar e manter um homem” é algo que NÃO VALE A PENA. Mulheres estão adoecendo para se manter em relações que sugam sua energia vital, apenas para poder dar essa satisfação à família e à sociedade.

 

 

Nem uma coisa, nem outra: você não tem que ser totalmente autossuficiente e nem tem que estar em um relacionamento pra ser feliz. Apenas canalize sua energia pra você, pras coisas que ainda deseja conquistar e viver. Preocupar-se em dar satisfação aos outros é um desperdício da linda energia que há em você. Existem inúmeras maneiras de nos realizar e de sermos felizes. Estar em uma relação amorosa saudável é apenas uma delas. Invista bastante em uma relação de amor consigo mesma, para que quando e se for o caso de aparecer alguém que realmente te conquiste, você esteja pronta para viver isso sem idealizações e sem os padrões emocionais dependentes que a socialização feminina estimula e favorece.

 

 

Mas saiba que o mais importante nessa história toda é que você nunca, jamais, em hipótese alguma, abra mão de si mesma e de suas verdades.

 

 

 

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