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Copa do mundo, assédio e a suposta belezafobia

July 17, 2018

Durante a última Copa do Mundo, encerrada neste fim de semana, algo inusitado aconteceu: a Fifa orientou que as redes transmissoras dos jogos tomassem cuidado com a maneira de mostrar as mulheres torcedoras, evitando denegrir a imagem das mesmas com focos que pudessem sugerir uma erotização das arquibancadas. A orientação surgiu em decorrência do alto número de denúncias de assédio durante o campeonato, marcado pelo episódio em que brasileiros passaram vergonha fazendo uma brincadeira machista com uma torcedora russa.

 

 

O que foi apenas uma orientação no sentido de preservar mulheres deu o que falar e teve até um repórter reclamando de “belezafobia”, dizendo que estamos assistindo à oficialização da censura à beleza e argumentando que a decisão da Fifa fortalece a ideia de que a culpa do assédio é da mulher assediada (no caso, por ser bonita).

 

Muitas são as nuances a serem analisadas nessa questão. Pensemos...

 

Qual é o contexto no qual surge uma orientação como essa? Precisamos recapitular essa história.

 

Primeiramente, devemos considerar que um dos efeitos mais fortes, violentos e devastadores da hierarquia sexual e de gênero chama-se: colonização do corpo feminino. O que significa isso?

 

Significa que a cultura machista nos ensina a atribuir significados e simbolizações peculiares ao corpo do sexo feminino. Isso é um processo muito profundo e poderoso, pois estamos falando de esquemas inconscientes que utilizamos para interpretar as informações do mundo. Eu diria que a vivência em uma cultura machista impõe uma lente que nos faz ver o corpo do sexo masculino e o do sexo feminino de formas muito diferentes. Enquanto o corpo masculino seria o padrão de corpo humano, o feminino carrega uma carga de sexualização e erotização diferenciada. Para recapitularmos essa história, precisaríamos ir mais longe e relembrar o cristianismo e seu ensinamento de que a mulher carrega em seu corpo o pecado do mundo, relembrar a cultura greco-romana e a inferiorização da mulher, entre outras influências históricas. Mas esse texto não pretende retomar a fundo essa trajetória, para não perdermos o foco.

 

Retomando então o contexto do qual estávamos falando, o fato é que uma orientação como essa por parte de um órgão como a Fifa só faz sentido e se faz necessária em um contexto em que existe uma intensa exploração da figura feminina pelos meios midiáticos.

 

Não há outra palavra: é uma verdadeira exploração. Uma exploração violenta, excessiva e principalmente: traumática. Isso mesmo, traumática.

 

Eu defendo a ideia de que é altamente traumática a maneira como a figura feminina é explorada pelos diversos meios midiáticos. É traumático crescer como menina em uma cultura onde isso acontece o tempo todo. É traumático ser menina em um contexto social que te ensina que seu corpo é um objeto sexualizado a serviço de agradar os olhos dos outros. Mas não é traumático apenas para meninas, embora seja infinitamente mais para elas. É traumático também para os meninos, que também são vítimas de uma incitação sexual precoce que os distancia de um desenvolvimento sexual natural e dificulta a construção de uma relação saudável com a figura feminina.

 

Mas, voltemos a elas.

 

Uma pesquisa britânica realizada em 2016 com mais de 1.600 garotas entre 7 e 21 anos revelou que, aos 7 anos de idade, as meninas já sentem vergonha de sua aparência. A pesquisa mostrou que, entre 7 e 10 anos, elas já assimilaram a ideia de que a coisa mais importante sobre elas é a aparência física e 38% delas sentem que não são bonitas o suficiente. O relatório da pesquisa ressalta que a implacável exposição à mídia e imagens digitais que objetificam mulheres contribui para o baixo nível de confiança nas meninas (veja mais no link: https://super.abril.com.br/comportamento/meninas-de-7-anos-ja-se-sentem-pressionadas-para-serem-bonitas/).

 

As pessoas ainda se surpreendem quando aparece na mídia uma figura como Mc Melody, que, aos 11 anos, transmite uma imagem adultificada e sexualizada. Lembrem do que falei sobre a colonização do corpo feminino? Pois é. Mc Melody é a perfeita ilustração do que é a colonização da infância de uma menina pela cultura machista.

 

 

Abaixo, deixo mais duas imagens para reflexão. A primeira, capa da revista Capricho, referência para as adolescentes brasileiras dos anos 90. Uma das matérias diz “A Feiticeira ensina como endurecer o bumbum, as pernas e a barriga”. E lá estávamos nós, aos 15 anos de idade, aprendendo que tínhamos que nos preocupar em aprender como ter a bunda de uma mulher explorada e objetificada pela mídia e que provavelmente levava uma rotina condizente com a de uma pessoa cujo objeto de trabalho é a sua imagem (alimentação, rotina pesada de academia, etc). Aos 15 anos, uma revista deveria estar nos ensinando a desenvolver nossa curiosidade sobre o mundo, a descobrir nossos gostos, a conhecer sobre nós mesmas, quem sabe nos ajudando a pensar sobre conflitos de amizade ou familiares... Mas elas estavam nos ensinando a nos preocupar em ter a bunda da Feiticeira.

 

 

A outra imagem que gostaria de mostrar foi publicada por uma influenciadora digital que venceu a bulimia e hoje usa seu instagram para lutar contra a objetificação do corpo feminino, que leva à imposição de perfeição assimilada pelas mulheres. Ela escreveu isso em seu diário aos 11 anos de idade, mesma idade da Melody, mostrada anteriormente: “Caro diário, cá estou eu escrevendo novamente, porque dessa vez, tenho uma missão. Eu estou pesando acima do que devo e vou emagrecer. Por isso, vou registrar minhas medidas até ir diminuindo. Peso – 42 kg / Altura – 1,49m / Barriga – 67 cm.

 

 

Diante de todas essas informações, acredito que fique mais fácil entender quando digo que é traumático crescer como menina em uma cultura machista. Como mencionei, acredito que não seja traumático apenas para meninas. Mas são elas que pagam o preço maior.

 

Ser mulher, nesse contexto, é isso: é estar em constante estresse pós traumático, travando uma luta diária para descobrir o próprio valor e se sentir alguém digna de ser amada, ao mesmo tempo em que a cobrança pela perfeição atua dentro de você, de maneira silenciosamente ensurdecedora.

 

Fica, então, o questionamento:

 

Será que é mesmo a orientação da Fifa para que haja cuidado na maneira de expor mulheres que favorece um suposto preconceito contra a mulher bonita? Ou é toda uma história de exploração da imagem feminina pela mídia que favorece que as redes transmissoras dos jogos usem as mulheres como se fossem objetos decorativos feitos para embelezar as arquibancadas?

 

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