E eu senti que poderia ser alguém...


So I remember when we were driving, driving in your car The speed so fast, I felt like I was drunk City lights lay out before us And your arms felt nice wrapped 'round my shoulder

And I had a feeling that I belonged And I had a feeling I could be someone Be someone

Be someone*

Esse pequeno trecho é da minha música preferida de uma das cantoras que mais gosto, a Tracy Chapman.

Essa música me toca de uma maneira muito especial, pois consigo captar nela uma mensagem muito forte. Ela fala de uma mulher cujo pai é alcoólatra e quando seus pais se divorciam, ela larga a escola pra ficar cuidando do pai. Ela quer uma vida diferente, ela deseja ser alguém, e chama o namorado para fugirem dali, tentar a vida em outro lugar, conquistar um lugar no mundo.

Eu acho tão maravilhoso o refrão que se repete várias vezes... Consigo visualizar o carro na estrada, o vento, as luzes da cidade e a sensação dela enquanto ela caminhava para um recomeço, uma nova vida, essa sensação maravilhosa que ela descreve como um pertencimento, um sentimento de que ela poderia ser alguém. Ela fala que é como se estivesse bêbada.

Ela consegue um emprego, ela cuida da casa, ela se esforça... Ela tenta. Mas o destino se impõe, inexorável: o marido não consegue emprego e se torna alcoólatra como seu pai, ela passa a cuidar da casa, dos filhos e do marido bêbado, como sua mãe.

Quantas variáveis podem ser consideradas para pensar a profundidade do que a música descreve! Questões sociais de classe, as barreiras intransponíveis impostas pelo dinheiro, as possibilidades limitadas por se nascer em uma família pobre, o triste destino dos filhos dos pobres, traçados pelo capitalismo de forma implacável. Questões de gênero, as possibilidades limitadas pelo fato de ser do sexo feminino, o destino das mulheres traçado pelo patriarcado de serem cuidadoras dos homens, questões essas que se interconectam com a raça e a classe ao determinar que os destinos mais tristes pertencem às mulheres pobres e negras.

Mas há mais que isso: para além da escassez de recursos externos que determinam o destino da personagem da música, acho interessante pensar nos recursos internos que ela tinha para traçar pra si mesma um destino diferente, tendo como referência a família de origem que ela teve.

Desenvolver recursos internos fortes o bastante para conseguir construir uma vida totalmente diferente, nessa situação, é um trabalho tão complexo e difícil, que as pessoas que conseguem fazê-lo tornam-se destaques, as exceções.

São muitas coisas atuando ao mesmo tempo e com muita força para que nosso destino não passe de uma repetição, em versão atualizada, da vida dos nossos pais ou que seja inteiramente definido pelas nossas condições externas – família, experiências traumáticas, barreiras históricas, econômicas e sociais.

E tudo isso me faz pensar em como é isso o que fazemos em psicoterapia: desenvolver e fortalecer recursos internos para que eles se sobreponham à escassez dos recursos externos, nos possibilitando driblar essa escassez, que, muitas vezes, está ali. E, muitas vezes, a escassez é mais interna do que externa; outras vezes, não. E essas coisas não estão relacionadas: tem gente com abundância externa e escassez interna, e vice-versa.

Em psicoterapia, não temos como interferir no externo diretamente, mas tentamos faze-lo indiretamente, mexendo no interno. E a importância e força desse trabalho, para mim, é inquestionável. Pois eu penso que, guardadas as devidas peculiaridades de situações em que os recursos externos são extremamente escassos; são os recursos internos, e não os externos, que determinam o que fazemos do nosso destino.

E você, conhece seus recursos internos? Acredita que os aproveita bem?

*Então eu me lembro de quando estávamos dirigindo, dirigindo seu carro

A velocidade alta, eu sentia como se estivesse bêbada

As luzes da cidade em cima de nós

E seus braços em volta dos meus ombros

E eu tive um sentimento de pertencimento

E eu senti que poderia ser alguém

Ser alguém

Ser alguém...

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