O que podemos aprender com Anne e o Coringa?

February 12, 2020

 

Estou acompanhando, por indicação de uma amiga, a série Anne with an E. Trata-se de uma série canadense, disponível na Netflix, inspirada no livro Anne of Green Gables, de 1908. Até o momento, o que mais chamou minha atenção na série, sem sombra de dúvidas, é a beleza da resiliência da personagem Anne (fiquem tranquilas que não darei spoillers). Anne é uma adolescente de 13 anos, órfã, que já sofreu todo tipo de maus tratos tanto das famílias pelas quais já passou quanto das colegas do orfanato. Logo no primeiro episódio, é possível perceber que seu comportamento verborrágico é uma forma de evitar que memórias ruins atordoem sua mente, pois a cada vez que ela se cala, há uma lembrança dolorosa pronta para invadir seus pensamentos. Ao longo da série, vamos percebendo que tudo é gatilho pra ela, pois ela é uma menina que coleciona feridas profundas.

 

 

Mas Anne espanta qualquer telespectador, pela forma como ela mantém intactas suas qualidades de saber enxergar beleza no mundo a seu redor, sua simpatia, alegria, capacidade de amar e perdoar, sua positividade, sua resiliência. Ela possui algumas reações exageradas e desproporcionais, típicas de quem traz consigo tantas marcas de combate que vive com medo de se retraumatizar a qualquer momento. Ainda assim, ela parece inabalável. Passado um momento de choro ou gritos, ela rapidamente se recompõe, pede desculpas a quem tiver que pedir e volta a ser a adolescente alegre e encantada com o mundo. Eis o que acredito ser a principal força de Anne: ela tem um encantamento com o mundo raro de se encontrar, como se o olhar típico da primeira infância fosse especialmente resistente nela, a ponto de não se abalar por todas as experiências que poderiam tê-la feito pensar que o mundo é um lugar ameaçador e não confiável. Anne está certa de que o mundo é um lugar absurdamente encantador. E ela está longe de ser ingênua: aos 13 anos, sabe se virar melhor que muito adulto por aí.

 

 

E a pergunta que fica, para mim, é: de onde vem essa força de Anne? Ela é uma mocinha muito bem instrumentalizada psiquicamente, faz uso – de maneira peculiar – dos maravilhosos recursos psíquicos que possui: a imaginação, a fantasia, a verborragia, o carisma, a inteligência. Mas de onde vêm esses recursos? O que faz com que uma menina com uma história tão sofrida, desenvolva tantas ferramentas para lidar com a vida?

 

 

Outra história, muito diferente da de Anne, mas também completamente recheada de violências, exclusão e vivências traumáticas, é a história de Arthur Fleck, interpretado pelo ganhador do Oscar Joaquin Phoenix. O Coringa é, sem dúvidas, um dos filmes mais angustiantes dos últimos tempos. É difícil encontrar alguém que não tenha sido fortemente tocado pelo personagem de Phoenix, pela sua brilhante interpretação e pelo mergulho psicológico no personagem que o roteiro propõe.

 

 

Começamos a acompanhar a história de Arthur quando ele já é um adulto de meia idade, ou seja, pegamos essa história de um ponto bem diferente do ponto onde começamos a acompanhar Anne. Sobre a infância, adolescência e juventude de Arthur Fleck, temos algumas informações e muitas suposições. Nem mesmo é possível tirar alguma conclusão sobre se houve rejeição paterna ou não, já que é possível que sua mãe tenha realmente delirado sobre sua relação com Thomas Wayne, assim como é igualmente possível que Thomas tenha forjado a loucura de Penny Fleck para escapar das responsabilidades com a gravidez. Enfim, o ponto é que temos pouca informação concreta sobre quem foi o Arthur criança e adolescente.

 

 

Com toda essa introdução sobre esses dois personagens, chego a um questionamento para o qual não existe, em toda a Psicologia, uma resposta satisfatória: o que é que faz com que uma pessoa desenvolva mais recursos internos que outras para lidar com experiências de dor e sofrimento?

 

 

Para além das diferentes propostas de cada produção, já que, no primeiro caso, trata-se de uma série de aventura e fantasia e, no segundo, de um filme de drama e suspense, há uma profunda indagação que se coloca ao pensar os perfis psicológicos desses personagens. Evidentemente, Arthur tem recursos psíquicos limitados, é um homem acometido por um intenso sofrimento mental causado por um transtorno psicológico que está evidente durante todo o filme. E, como todo ego tem suas ferramentas e estratégias, o dele não é diferente, de forma que a criação do Coringa não deixa de ser uma excelente estratégia de sobrevivência utilizada por sua psique. A estratégia não é funcional e nem adaptada às normas sociais, já que o Coringa é um assassino, porém, do ponto de vista unicamente psíquico, não há como dizer que não é uma excelente estratégia. É a criação do Coringa que permite sua sobrevivência em um mundo que o rejeita e exclui.

 

 

Anne, ao contrário, me parece uma menina cheia de recursos internos, curiosamente desenvolvidos no contexto de uma história de vida recheada de violência, exclusão e abandono. Sua estratégia de sobrevivência é mais funcional e adaptada: ela se refugia em um mundo de fantasia, onde ela é a princesa Cordélia. Ela desenvolveu um gosto peculiar pela leitura e vive todo tipo de experiência mágica através dos livros. Tentar imaginar Anne uma mulher de meia idade coloca a possibilidade, inevitavelmente, de uma mulher que adoeceu fazendo da fantasia seu refúgio definitivo. Mas não é essa a hipótese mais forte que a personagem nos deixa: é muito mais fácil imaginar uma Anne de 45 anos extremamente feliz, transmitindo a seus filhos e demais crianças a seu redor o encantamento com o mundo que ela leva dentro de si.

 

 

Contextos diferentes, histórias diferentes, personagens diferentes. Mas uma pergunta que se estende à vida real, nos infinitos exemplos de Anne e Coringa que temos no mundo: por que algumas pessoas parecem ter mais recursos que outras para lidar com a vida? Por que há pessoas com histórias de extremo sofrimento e dor e que estão dando conta de tanta coisa, cultivando bons sentimentos e construindo uma vida de realizações, ao mesmo tempo em que há tantas pessoas que parecem carecer de ferramentas e adoecem, desenvolvendo estratégias patológicas e desadaptadas?

 

 

Definitivamente, a resposta não passa por nada que suponha o sofrimento como algo mensurável. Não é uma questão de quem sofre mais ou quem sofre menos e nem do potencial traumático das vivências de cada um. As pessoas que estão menos adaptadas ou sofrendo mais, desenvolvendo estratégias psíquicas patológicas, não são as pessoas com as histórias mais sofridas, e sim as que possuem menos recursos para lidar com seus traumas, parte inevitável da vida de todo ser humano. Repetindo a frase que já utilizei em outro texto: são os recursos internos, não os externos, que determinam o que fazemos do nosso destino.

 

 

Mas o que é que faz com que uma pessoa tenha mais recursos que outra é uma pergunta que permanece sem resposta. É difícil delimitar o grau de responsabilização de um indivíduo sobre o próprio adoecimento. Sob certo ponto de vista, podemos dizer que o adoecimento é sempre uma escolha, ainda que inconsciente. Por outro lado, nenhuma abordagem psicológica permitiria dizer que uma psique escolhe ter poucos recursos. Nossos recursos são como uma caixinha interna de ferramentas, quanto mais cheia a caixinha, maior nossa capacidade para nos colocar no mundo e lidar com a vida. Mas qual a porcentagem dessa caixinha é inata? Qual porcentagem é o ambiente que nos proporciona? Podemos entender esses recursos como algo que vem do nosso âmago, aceitando a ideia de uma essência humana? Ou seria melhor dizer que é na interação entre o que trazemos para o mundo e o que vivemos que vamos formando nossos recursos? Percebem como nenhuma resposta é suficientemente satisfatória?

 

 

Bom, como imagino que tenha ficado claro, esse texto pretende muito mais levantar questionamentos e compartilhar inquietações do que propor respostas. De tudo isso, fica uma reflexão urgente para nossos tempos: se é sabido que é através da superação de frustrações que vamos formando nossa caixinha de ferramentas psíquica, talvez, com a evitação da frustração a todo custo que tem guiado a educação de muitas das nossas crianças e adolescentes, estejamos formando indivíduos cada vez menos instrumentalizados.

 

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