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É preciso que as conquistas femininas atinjam as subjetividades

March 8, 2018

Do ponto de vista dos direitos da mulher, é inegável que avançamos muito. Direitos conquistados à base de muita luta feminina permitem hoje que as  mulheres ocupem novos espaços e construam novas trajetórias. Mas por que será que, a despeito de tantas mudanças, ainda existe tanta desigualdade, tanta mulher vítima de violência e ainda é uma certeza o fato de que há muito o que ser conquistado?

 

 

Como diz a música de Lulu Santos, “assim caminha a humanidade: com passos de formiga e sem vontade”. A força da tradição é maior do que imaginamos e conquistas levam tempo demais para refletirem em mudanças efetivas e realmente libertadoras.

 

 

A verdade é que ainda estamos presas a ideologias patriarcais historicamente construídas pelos grandes nomes (masculinos) da Igreja e da Filosofia. Eis um tipo de violência que é talvez a mais poderosa de todas e sobre a qual quase não se fala: a VIOLÊNCIA IDEOLÓGICA. Vamos conversar um pouco sobre ela?

 

 

Violência ideológica se refere à disseminação de ideias sobre a inferioridade de um grupo ou classe. Não é qualquer pessoa que consegue praticar violência ideológica. Se a Dona Maria sair disseminando ideias sobre a inferioridade das pessoas que usam blusa amarela, isso não configura violência ideológica pelo simples motivo de que o discurso dela tem pouco alcance e poder de persuasão. É um critério desse tipo de violência que se esteja em um lugar de poder social, para que seu discurso tenha um bom nível de credibilidade.

 

 

Esse lugar de poder, historicamente, tem sexo, gênero e cor. Sabemos que as grandes influências que servem como referências dos nossos valores culturais são de homens brancos. A filosofia grega e os princípios cristãos, atuam, ainda hoje, como balizadores das nossas representações sociais e dos nossos esquemas de interpretação do mundo. Estamos falando de ideologias construídas por homens. Homens que detinham o lugar do poder discursivo, o privilégio da credibilidade de suas falas. E que disseminaram, com extrema violência e força, discursos que defendiam, sem pudor e sem disfarces, a ideia de uma inferioridade natural do sexo feminino. Platão e Aristóteles definiram a mulher como um “erro da natureza”, um “homem sem esperma”. Homens da Igreja escreveram o Malleus Malleficarum, um documento que pregava a ideia de uma associação natural entre o sexo feminino e as forças do mal.

 

 

 

 

Sabem por que a violência ideológica pode ser considerada o pior tipo de violência? Por três razões:

 

1. Porque ela atua na construção das subjetividades.

 

2. Porque ela ultrapassa todas as barreiras de tempo e espaço.

 

3. Porque ela é a mais sutil e difícil de ser nomeada.

 

 

Isso dá à violência ideológica um poder de alcance que simplesmente não fazemos ideia. Não conseguimos dimensionar. Estamos, até hoje, baseando nossas crenças e práticas em discursos de séculos atrás e sem saber o porquê.

 

 

Estamos no ano de 2018, e a despeito de todas as conquistas e avanços de nossos direitos, ainda nos sentimos frágeis. Ainda somos vítimas de violência masculina. Ainda estamos reféns do olhar do outro para construir nossa autoestima.

 

 

Ainda não descobrimos o que podemos, de fato. Estamos em um momento em que o discurso libertário está em alta, porém, se não tomamos consciência da força da ideologia patriarcal na nossa maneira de pensar, todos os discursos libertários não passam de repetições machistas disfarçadas de liberdade. Estamos, por um lado, gritando que podemos exercer nossa liberdade sexual e transar com quem quisermos, enquanto por outro lado, sequer nos permitimos expressar nossos verdadeiros sentimentos, desejos e vontades, com medo do que pode parecer ou do que o outro pode pensar. Achamos que conquistamos muito em relação à liberdade sexual, mas acabamos construindo novas obrigações e imposições que não deixam espaço para entrarmos em contato com aquilo que realmente somos e realmente queremos, em nosso íntimo. Estamos perdidas, ainda tentando nos adequar a algo que na verdade nem sabemos o que é. E, às vezes, vem a angústia, a dor ou o choro, nos avisando que algo não vai bem, que algo lá no nosso íntimo ainda não está sendo ouvido, ainda não conseguiu conquistar espaço.

 

 

 

 

 

Não nos culpemos por nada disso! Não somos nós as culpadas, nunca fomos. O feminino não descansa, ele é forte e tenta lutar com as armas que encontra à mão. Nosso erro é que ainda não aprendemos a ouvi-lo e a confiar nele. E quem disse que isso é fácil? A histórica violência ideológica ainda ressoa em quem somos. Tivemos o sentido da nossa existência definido pelos detentores do saber filosófico/cristão. Foi assim que nossas subjetividades, enquanto mulheres, se construíram. Subjetividades construídas com base na crença da própria inferioridade. Como aprender, agora, a se construir de forma independente dessas mensagens que ainda ecoam em nossos ouvidos?

 

 

A resposta que eu proponho é: tomando consciência da violência ideológica para que possamos nos libertar dela, e exercendo a confiança no feminino ancestral. Conecte-se com seu feminino, ele é força. Confie nele. Resgate discursos de mulheres, tão silenciadas ao longo da história. Ouça mulheres. Leia mulheres. Conecte-se com elas. Dê credibilidade ao que falam. Ainda não conseguimos tirar os homens desse lugar de extrema credibilidade, do lugar de quem detém a fala que deve ser ouvida.

 

 

Nem Freud soube falar algo satisfatório sobre as mulheres. A Psicanálise é cheia de teorias que nos definem de maneira porca. Porque a verdade é essa: eles nunca souberam nada sobre nós. E continuam não sabendo.

 

 

Mas os efeitos dessa violência persistem.

 

 

A verdadeira libertação de que precisamos é a libertação subjetiva. Ainda estamos engatinhando, no que diz respeito a libertar nossas identidades e, assim, nos constituir como sujeitos capazes de se autodefinir e falar por si.

 

 

 

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