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A liberdade sexual feminina foi um tiro no pé?

May 23, 2019

 

 

Eis um tema polêmico, que irei arriscar na tentativa de abarcar os diversos fatores importantes para essa discussão.

 

Comecemos pela parte conceitual. O que é liberdade sexual? Em uma resposta rápida, acredito que o que vem à cabeça da maioria das pessoas seja algo parecido com “liberdade para exercer sua sexualidade sem o peso do julgamento social em cima das suas escolhas”. Porém, esse conceito pode ser mais complicado do que pensamos.

 

A luta das mulheres por liberdade e autonomia, mais que justa, é fundamental e necessária para a construção de uma sociedade mais saudável. Acontece que, no quesito liberdade sexual, talvez um importante erro estratégico tenha ocorrido...

 

Esse erro consiste em associar liberdade sexual a algo que os homens tinham. E, então, partimos em busca daquela invejável liberdade para transar com quem quiser sem ser julgado por isso. É fato: são as mulheres, em nossa cultura patriarcal e machista, que sofrem com a vigilância social em tornos de suas escolhas sexuais e amorosas. Uma rápida olhada em qualquer site de fofoca revela quais os assuntos que mais despertam curiosidade em relação à vida das mulheres. Vivemos em uma sociedade sempre pronta a investigar e julgar a vida íntima das mulheres. É fato que essa vigilância e julgamento recai sobre elas em uma proporção incomparável com a que recai sobre os homens.

 

A partir do momento em que nos conscientizamos da injustiça disso, fomos em busca dessa liberdade, organizamos marchas das vadias, gritamos ao mundo que transamos com quem quisermos, pois o corpo é nosso! Só que, nessa busca, algo escapou ao nosso olhar:

 

O fato de que, na verdade, os homens nunca tiveram liberdade sexual.

 

É verdade que os homens estão isentos do julgamento em relação ao número de parceiras e não sabem o que é viver em uma cultura que os divide em santos e putos. É verdade também que todos os xingamentos associados à sexualidade só fazem sentido quando aplicados a mulheres, o que é um efeito da violência machista.

 

Porém, liberdade sexual é algo bem mais profundo, que os homens sempre estiveram muito longe de ter.

 

 

 

 

Liberdade sexual é poder estar conectado consigo mesmo, é a verdadeira conexão com seus desejos, é encontrar meios para que seus desejos se manifestem com plenitude, é quando seu desejo sexual é uma manifestação da verdade do seu eu. Liberdade sexual é fruto de muito autoconhecimento, ela só se expressa através de uma profunda conexão entre seu corpo, alma e coração. É quando seu corpo se encontra livre para produzir desejo, sem angústia, sem culpa, sem obrigações, apenas com a leveza de poder ser. Todas as espécies sexuadas possuem sexo, mas apenas o ser humano possui sexualidade, que engloba o aspecto físico, psíquico e emocional. Só podemos dizer que uma sexualidade é livre quando ela é uma expressão da plena conexão entre esses aspectos.

 

Os homens, assim como nós, sempre estiveram distantes da liberdade sexual. A socialização masculina heterossexual se encarrega de educa-los pela via da hiperestimulação através da exposição a estímulos pornográficos e de ensina-los a objetalizar a mulher. Os homens tornam-se completos ignorantes em relação ao ser mulher e desenvolvem uma dissociação patológica na sexualidade: aprendem a desprezar, inferiorizar e até mesmo odiar aquilo que desejam. Se não vivêssemos em uma sociedade tão machista e que naturaliza o desprezo pela mulher, essa dissociação masculina já estaria descrita nos manuais de psiquiatria.

 

Sim, quero dizer que o machismo produz uma sexualidade doente nos homens.

 

Nas mulheres, o problema é diferente. Vítimas também da hiperestimulação (afinal, elas não ficam isentas aos estímulos sexualizados que não respeitam nem mesmo crianças pequenas), no caso delas, ainda existe o ensinamento da repressão de seus desejos. Não pensem que não faz parte ainda, em pleno 2019, da educação das meninas, o fantasma do medo do julgamento social em relação à sua vida íntima. Infelizmente, meninas ainda são ensinadas a ter medo de “ficar mal falada”, ao invés de serem ensinadas que conhecer e respeitar seu corpo e desejo é muito mais importante do que se esforçar para ser aprovada em uma cultura que vai te julgar de qualquer forma a partir do momento em que você nasceu com uma vagina.

 

Acertamos na estratégia para alcançar liberdade sexual quando buscamos nos conectar conosco, aceitar nosso corpo como é; quando buscamos autoaceitação; quando aprendemos a realmente nos amar; quando desenvolvemos admiração por quem somos; quando curamos nosso feminino; quando aprendemos a silenciar a voz do patriarcado que se interpõe em nossa relação conosco mesmas; quando exercitamos a conexão com o nosso coração e com a nossa verdade; quando nos aprofundamos no exercício dos nossos reais desejos.

 

Erramos na estratégia quando gritamos que o corpo é nosso e transamos com quem quisermos, tentando nos iludir e ignorar o fato de que o nosso corpo ainda é totalmente regulado pelas instâncias patriarcais – a começar pelo Estado; quando aceitamos o aprendizado machista de que número de parceiros se associa a liberdade; quando compramos a ideia de liberdade vendida atualmente, caracterizada pela mulher hipersexualizada, “sexualmente bem resolvida”, com uma demanda sexual altíssima, e que “usa os homens” a seu bel prazer.

 

Em suma: erramos de estratégia quando achamos que o que os homens tinham correspondia a um real poder.

 

 

 

 

 

O resultado disso é que vivemos um momento em que o privilégio masculino, no que diz respeito às relações heterossexuais, está em seu auge. A mentalidade masculina não acompanhou os avanços femininos e os homens, em geral, continuam com aquele pensamento arcaico que divide as mulheres em “mulheres pra casar” e “mulheres pra se divertir”, com base no comportamento sexual delas. A defesa de uma falsa liberdade sexual feminina predomina no discurso dos homens, que pregam que as mulheres devem ter liberdade para transarem com quem quiserem. Enquanto se beneficiam desse discurso liberal, continuam, veladamente, colocando em prática os rótulos machistas para elas.

 

As mulheres, por sua vez, reproduzem, cada vez mais, um discurso de superficialidade das relações, influenciado pela lógica do não apego que paira em nossa cultura atual. A ordem da vez é “não criar expectativas”, não se apegar, ou seja, fazer de conta que somos apenas corpos dispostos ao prazer em tempo integral, ao mesmo tempo em que silenciamos os afetos. Esqueça o aprofundamento das relações, as trocas verdadeiras, o estar de forma inteira nas interações e se relacionar com pessoas inteiras também. Tornamo-nos apenas corpos sexualizados e necessariamente atraentes e sempre dispostos a seduzir. Ser “bem resolvida sexualmente” tornou-se sinônimo de estar inserida e bem familiarizada com o tipo de comportamento sexual que sempre pertenceu aos homens. “Se eles podem nos usar, podemos usa-los também”, e assim, ficamos enlaçadas pela chamativa possibilidade de “dar o troco”.

 

Resultado: nunca odiamos tanto nossos corpos quanto hoje. Nunca foi tão forte a obrigação de ser gostosa e sexualizada. Nunca esteve tão em alta a imposição da vida fitness e do corpo perfeito. O discurso liberal trouxe figuras como Anitta e as rainhas da cultura pop, mulheres cuja imagem vendida pela mídia corresponde a uma feminilidade herdada da pornografia. A pornificação da cultura tomou conta da cultura pop e já chega a meninas de cinco anos de idade.

 

As relações estão vazias e superficiais. O aprofundamento de uma relação parecer ter se tornado um jogo de tantos obstáculos que as pessoas se perdem nele. As mulheres se queixam nos consultórios de Psicologia, buscam por algo mais enriquecedor e não conseguem encontrar. Precisam fugir do rótulo machista da mulher desesperada pra casar e, assim, gritam aos quatro ventos que só querem sexo. Realmente, as opções deixadas para elas são sempre muito violentas! Se querem se divertir, não são mulheres para se levar a sério; se querem algo mais profundo, estão desesperadas para casar.

 

 

 

É por isso que qualquer busca por liberdade que não passe primeiro por uma verdadeira libertação dos modelos construídos pelo patriarcado, será sempre um tiro no pé. Sendo otimista, podemos pensar que o momento em que estamos é uma etapa necessária para uma outra que virá. Quem sabe, nos dando conta de que nos iludimos com uma falsa ideia de liberdade que nos trouxe mais prejuízos que benefícios, possamos, então, começar a caminhar rumo a nós mesmas e a algo que faça mais sentido para nós.

 

A lógica do desapego e da superficialidade das relações, quando vigente em uma cultura machista, é uma máquina de moer autoestima feminina. Espero ainda poder ver uma real libertação e empoderamento feminino, que demandará uma percepção mais profunda das máscaras que o patriarcado assume para nos vender falsas liberdades.

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